Uma visão sobre a geração ingênua que sofre de complexo de Bill Gates e pensam que serão empreendedores digitais milionários


Já estagiei numa pequena "fábrica de software" e fiquei tempo suficiente para não querer seguir carreira como desenvolvedor apesar do tão falado status... 

Era uma micro empresa que já estava quase ficando média, infelizmente era uma daquelas empresas que faziam o mix de agência de publicidade com desenvolvimento de softwares...

95% dos trabalhos lá eram para outras empresas: desenvolvimento de pequenas aplicações para banco de dados, automação comercial, programas para sistemas industriais de controle de tempo e de máquinas, plugins para sites, sites empresariais simples, aplicativos simples voltados mais para a divulgação dos serviços da empresa, aplicativos free ou de coleta de dados através de formulários discretamente inseridos em páginas da web ou aplicativos free, etc.

De vez em quando a agência de publicidade anexa à empresa empurrava alguns malucos para a gente do desenvolvimento: só os panguados com complexo de Bill Gates...

Era cada maluco com umas ideias fracas que eu tinha vontade de pular da janela do segundo andar do pequeno prédio de 4 andares da empresa...

Se não me engano era a época de ouro das plataformas virtuais de venda de infoprodutos.

Certo dia empurram um cara para conversar conosco: o sujeito parecia o Pit Bicha de bigode, óculos escuro e cabelo chamél...

Entrou na sala com uma volumosa pasta de onde sacou um notebook e já foi ligando seu Windows e nos apresentando sua ideia no formato de slides do Power Point...

Já foi falando que era "algo muito simples", sua ideia consistia em lançar um site em que os usuários registrados pagariam para enviar seus info-cursos e ministrar suas aulas virtuais ao vivo para alunos pagantes mensalistas. Uau! Muito simples mesmo né! Pelo que sei já existe hoje em dia a tal plataforma e não, não é do nosso amigo Pit!

Como expliquei no começo do texto, nossa empresa  fazia apenas serviços triviais, simples, a parte chata do mundo da programação que ninguém fala ou divulga. 

Dia típico de um desenvolvedor...


A midia divulga muito essa ideia errada de que a vida de programador é do nerd estereotipado sempre criando programas fantásticos e revolucionários, coloridos, games inovadores etc: não meus amigos, a maior parte do tempo um programador ou desenvolvedor se debruça em telas chatas pretas, com um cursor piscando e tentando resolver um bug terrível no programa chatíssimo que regula os micro segundos que uma pinça mecânica leva para pegar uma peça na esteira da fábrica de chuveiro ou de chocolate...

Dissemos para nosso colega empreendedor digital  que até que seria possível desenvolver a tal plataforma, porém, o investimento seria muito alto por conta da infra estrutura que seria necessária para os serviços de streaming, servidores dedicados, links poderosos, time de suporte e desenvolvimento 24 horas por dia e infelizmente, nossa empresa tinha como foco projetos mais simples... 

Mesmo assim Pit Bicha queria saber o valor que gastaria mais ou menos por baixo: um colega meu desenvolvedor sênior (eu era apenas um estagiário simplório) deu o orçamento.

Pit Bicha arriscou um palpite "Quanto? Uns 8 mil reais por ai?" e meu amigo não aguentando segurar uma risada de escárnio lascou nos ouvidos do sonhador: "Quê? 8 K não paga nem  a página Home do site! Estamos falando de milhões meu caro!". 

Foi quase triste ver as ilusões do nosso amigo se desfazendo no ar...

Outro maluco que aparecia de 15 em 15 dias por lá era um estudante de Marketing que sempre vinha nos apresentar suas ideias mirabolantes e revolucionárias. Se auto chamava de "Makeline Star" que também seria o nome de sua futura Startup...

Eis algumas de suas ideias: 

*App "BrigaLícia" para reunir vendedores de brigadeiro: um tipo de facebook com cadastro e divulgação de pessoas que faziam e vendiam brigadeiros caseiros, pagariam uma taxa mensal para nosso amigo e esse se responsabilizaria na divulgação massiva dos contatos telefônicos;

*App e site "Recicla-Love": uma ideia maluca que consistia em lançar um site de reciclagem de preservativos usados para motéis: o motel faria o cadastro grátis pelo site ou App e receberia gratuitamente  mensalmente um receptáculo para colher as camisinhas usadas que seriam recolhidas periodicamente e vendidas para "reciclagem", processo que nem nosso amigo Makeline sabia como seria , se era permitido isso ou se alguma empresa fazia isso...

*Site "Bumbum Peludo": site para encontros entre rapazes marcarem encontros em banheiros de Shopping, Metrô para a prática de sodomização segura, o site teria orientações de uma psicologa descolada (prima do Makeline), ensinando que essas práticas vinham da Roma antiga e deveriam ser realizadas  discretamente para não chocar a sociedade... Cobraria uma taxa simbólica e também divulgaria campanhas sobre sexo seguro e AIDS. 

Enfim, tirando essas ideias acima, o Makeline até que tinha umas ideias interessantes de vez em quando e até possíveis de serem implementadas, porém, nosso amigo publicitário em formação nunca tinha um centavo no bolso, nem dinheiro para uma hospedagem básica e um template barato de WordPress ele tinha.  

Problemas, problemas e problemas...



Enfim, nem vou mencionar a enxurrada de piramideiros e estelionatários em geral  que apareciam por lá. Era cada ideia maluca e safada que era inacreditável. 

Eu mesmo tentei lançar alguns aplicativos na Google Store e me lasquei: o G todo poderoso não aprovou nenhum e eu admito: eram todos uns lixos!!!! 

Meses atrás anunciei um aplicativo gratuito da Blogosfera Financeira que iria reunir alguns textos inéditos meus ao mesmo tempo em que divulgaria os links dos parceiros do blog: foi rejeitada na hora pela Store. E até que foi bom: pra quê serviria essa porcaria? Adsense não está dando nada mesmo...

Todo dia sou notificado de violações de políticas nos meus textos, todo dia vejo minhas postagens indo parar nos confins do DB googleano, realmente ultimamente está muito chato agradar o Grande G...

Em breve vou desativar os anúncios aqui do blog e tentar vender algo criado por mim mesmo ou do blog, ainda assim ajudo meus amigos e colegas mantendo os links de seus blogs, produtos, canais e serviços sem cobrar nada deles. Nem posso cobrar pois meus textos assim que eu posto ficam invisíveis para as pesquisas e eu não admito ser controlado por um algoritmo sem cerébro, jamais vou alterar meus textos e assuntos de modo que fiquem completamente ao gosto dos anunciantes bilionários.

Vou vender algo meu somente para pagar a renovação do domínio anualmente e assim ficar um pouco mais animado para postar, agora tenho tempo de sobra, mas em breve vou voltar ao mercado de trabalho e os textos serão mais raros. 

Acredito no que dizia um gerente boi-ola (Charlete), do tempo que eu trampava no fast food: "Com muito dinheiro para investir em publicidade, basta embalar fezes humanas num papel dourado que vai vender como água no calor!". 

Sem dinheiro meu amigo, não adianta nem sonhar... Infelizmente é assim.

Att Gerson Ravv


Humor sério para refletir: